Com guitarras eletrizantes, romantismo juvenil e uma boa dose de irreverência, o álbum de 1964 consolidou a parceria com Erasmo Carlos e abriu caminho para a revolução musical da Jovem Guarda.
Lançado em 1964 pela CBS, É Proibido Fumar representa um momento decisivo na trajetória de Roberto Carlos, quando o jovem cantor de Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, conquistava espaço entre os principais nomes do rock brasileiro. Terceiro álbum de sua discografia, sucedendo Louco por Você (1961) e Splish Splash (1963), o trabalho reúne 12 faixas em aproximadamente 28 minutos e 30 segundos, combinando rock and roll, rockabilly, surf music, doo-wop e baladas românticas.
Gravado em junho de 1964, nos estúdios da CBS, no Rio de Janeiro, sob a produção de Evandro Ribeiro, o LP surgiu em um país marcado por transformações políticas, pela instauração da ditadura militar e pelo crescimento de uma cultura juvenil influenciada pelo cinema, pela televisão e pelos sucessos internacionais. Acompanhado pelo conjunto The Angels, posteriormente conhecido como The Youngsters, Roberto encontrou uma sonoridade mais vigorosa, marcada por guitarras elétricas, baixo destacado, bateria pulsante e intervenções de saxofone. Entre os instrumentistas estavam os irmãos Carlos e Sérgio Becker, Carlos Roberto, Jonas Damasceno e o baterista Romir Andrade. O resultado antecipava a identidade musical da Jovem Guarda, movimento que ganharia projeção nacional em 1965, com a estreia do programa homônimo na TV Record. Em uma época de forte presença da bossa nova e dos intérpretes tradicionais nas rádios, o disco ajudou a ampliar o espaço comercial do rock cantado em português, aproximando o repertório estrangeiro dos hábitos, das fantasias e das inquietações da juventude brasileira.
A faixa que dá nome ao álbum, composta por Roberto e Erasmo Carlos, tornou-se uma das gravações mais representativas do rock nacional, combinando a energia do rockabilly com uma narrativa divertida sobre um romance interrompido pela proibição de fumar. O humor da composição, sua estrutura melódica envolvente e a interpretação descontraída de Roberto contribuíram para transformar a música em um sucesso popular. Outro destaque é O Calhambeque, versão de Erasmo Carlos para Road Hog, de John D. Loudermilk e Gwen Loudermilk, cuja história de um automóvel antigo convertido em símbolo de conquista amorosa conquistou o público e se tornou uma marca da carreira do cantor.
A gravação guarda uma curiosidade reveladora das limitações técnicas dos estúdios brasileiros naquele período: segundo o baterista Romir Andrade, o arranjo foi simplificado porque a bateria convencional encobria os demais instrumentos. A solução surgiu com a utilização de uma lata vazia de fita de gravação, tocada com vassourinhas, criando uma percussão discreta e original. Em Broto do Jacaré, também assinada pela dupla Roberto e Erasmo, aparecem influências da surf music popularizada pelos Beach Boys, enquanto Um Leão Está Solto nas Ruas, composição de Rossini Pinto, apresenta uma interpretação bem-humorada e dinâmica. Nasci Para Chorar, adaptação de uma canção de Dion DiMucci, explora o sofrimento amoroso, enquanto Desamarre o Meu Coração, versão de Unchain My Heart, sucesso associado a Ray Charles, aproxima Roberto das influências do rhythm and blues. A delicadeza de Rosinha, o sentimentalismo de Minha História de Amor e a atmosfera romântica de Amapola completam um repertório que alterna entusiasmo, humor e emoções juvenis.
A construção musical de É Proibido Fumar revela um artista em plena transformação, desenvolvendo uma personalidade vocal que conciliava a influência dos ídolos norte-americanos com características próprias da canção popular brasileira. Roberto Carlos participa também como instrumentista, tocando violão e guitarra, enquanto a presença dos The Youngsters proporciona unidade aos arranjos, mesmo com algumas limitações de gravação e produção características da época. Entre os compositores presentes estão José Messias, Helena dos Santos, Jovenil Santos, Rossini Pinto e a dupla Roberto e Erasmo, cuja parceria começava a adquirir importância histórica. Louco Não Estou Mais, outra composição dos dois, chama atenção por recuperar referências a músicas anteriores do repertório do cantor, funcionando como uma brincadeira com sua própria trajetória.
O álbum também evidencia o papel dos versionistas na indústria fonográfica brasileira, responsáveis por transformar sucessos internacionais em canções capazes de dialogar diretamente com o público nacional. A importância comercial do trabalho contribuiu para consolidar a posição de Roberto na CBS e preparar sua ascensão como principal representante da Jovem Guarda. O repertório alcançou outros mercados, inclusive por meio de adaptações em espanhol reunidas no álbum Canta a la Juventud, lançado em 1965. Décadas depois, a faixa É Proibido Fumar continuaria atraindo novas gerações, recebendo interpretações de artistas como Rita Lee, Raul Seixas e Skank, cuja versão dos anos 1990 devolveu a composição às rádios. Relançado em CD pela Sony Music, inclusive em projetos de recuperação do catálogo coordenados por profissionais como Guto Graça Mello e Marcelo Fróes, o disco permanece como um registro fundamental dos primeiros passos do rock brasileiro. Embora algumas letras conservem a ingenuidade e os padrões sentimentais dos anos 1960, a espontaneidade das interpretações, a inventividade dos arranjos e a força das melodias garantem sua relevância histórica e artística.
Ficha técnica
Autor: Roberto Carlos
Ano de lançamento: 1964
Produtor: Evandro Ribeiro
Gravadora: CBS Records, catálogo 37352. Reedições pela Sony Music.
Gravação: Junho de 1964, nos estúdios da CBS, Rio de Janeiro.
Gênero: Rock and roll, rockabilly, surf music, doo-wop e pop.
Músicos: Roberto Carlos (voz, violão e guitarra); The Angels, posteriormente The Youngsters (acompanhamento instrumental), incluindo Sérgio Becker (saxofone), Carlos Becker, Carlos Roberto, Jonas Damasceno e Romir Andrade.
Tracklist
1. É Proibido Fumar. Compositores: Roberto Carlos e Erasmo Carlos.
2. Um Leão Está Solto nas Ruas. Compositor: Rossini Pinto.
3. Rosinha. Compositores: Oswaldo Audi e Athayde Júlio.
4. Broto do Jacaré. Compositores: Roberto Carlos e Erasmo Carlos.
5. Jura-me. Compositor: Jovenil Santos.
6. Meu Grande Bem. Compositora: Helena dos Santos.
7. O Calhambeque (Road Hog). Compositores: John D. Loudermilk e Gwen Loudermilk. Versão em português: Erasmo Carlos.
8. Minha História de Amor. Compositor: José Messias.
9. Nasci Para Chorar (Born to Cry). Compositor: Dion DiMucci. Versão em português: Erasmo Carlos.
10. Amapola. Compositor: Joseph M. Lacalle. Versão em português: Roberto Carlos.
11. Louco Não Estou Mais. Compositores: Roberto Carlos e Erasmo Carlos.
12. Desamarre o Meu Coração (Unchain My Heart). Compositores: Agnes Jones e Freddy James. Versão em português: Roberto Carlos.